domingo, 23 de janeiro de 2011

Talvez Só

Dois passos no escuro e você está lá.
Não sabe como chegou, nem a marca do cigarro que acabou de acender.
Pareço familiar, mas nem tanto.
Não o suficiente para que pudesse lembrar meu nome.
Passamos muito tempo juntos, mas eu estava só.
Pareço familiar.
Talvez a moça comportada da lavanderia,
talvez a vadia do boteco da esquina.
Talvez não.
Familiar, mas nem tanto.
Dois passos no escuro e você está lá.
Fixou os olhos verdes no chão
e nem disse boa noite.
Talvez lembre quantos dias ficou fora,
talvez lembre meu nome.
Talvez não.
Pareço familiar, mas nem tanto.
Você maldiz o sol por demorar a aparecer.
Não sabe se a noite foi boa ou ruim,
mas quer que acabe logo.
Dois passos no escuro e você está lá.
Passamos muito tempo juntos, mas eu estava só.
Você reclama da lentidão das horas,
mas sou eu quem tem que esperar.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sem pensar

Eu atravesso a rua sem olhar para os lados.
Não paro, não penso, não ouço. Só atravesso.
Sou apenas parte da decoração.
Uma cadeira, um tapete, uma lâmpada queimada.
Sou uma lâmpada queimada e quero matar-me.
Matar-me a mim mesma, com todos os erros ortográficos,
com toda a falta de sensibilidade e eloquência que me foi destinada.
Quero matar-me com palavras obscenas e com a ausência de rima dos meus versos,
com um porém solto, sem vírgula antes nem depois.
E nem antes nem depois quero lembrar que me importo.
Ao invés de cálculos, quero ter erros de concordância nos rins.
Quero uma asfixia proveniente de todos os verbos mal conjugados que ouço todos os dias.
Eu atravesso a rua sem olhar para os lados.
Fecho os olhos e canto um trecho de Still Loving You
com uma pronúncia ruim e sem pensar no que significa.
Oh, inglês, idioma simplório! Como consegues te dar tão bem com a música?
"Time, it needs time...". Três, dois, um... e nada.
Quero matar-me. Matar-me a mim mesma.
Sem pensar, sem lembrar e sem querer,
eu atravesso a rua sem olhar para os lados.

domingo, 16 de janeiro de 2011

I'm back

Um dia desses me dei conta de quanto tempo faz que eu não escrevo nada além de recados para pessoas pacientes.
Percebendo isso durante um dos meus maçantes dias de férias, corri pegar um pedaço de papel e uma caneta para tentar recuperar a prática perdida. Fiquei segurando a caneta e olhando para o papel durante longos e tenebrosos 45 minutos. Nada.
Respirei fundo, estralei os dedos, pensei positivo e a única coisa que me veio à cabeça foi que o café havia acabado. Isso era pior do que não ter idéia nenhuma.