quarta-feira, 15 de junho de 2011

Desenlace

Permaneço em mim, embora descontrolada.
Não há luz ou sinal, não há nada
Que me faça distinguir o que é ou não real,
Mas permaneço em mim.

Lembro dos dias de sol, dos dias de vida.
Não queríamos atalhos, nem saída.
Nenhum momento nos parecia banal,
Não parecia haver fim.

Mas é sempre triste o desfecho de tudo.
Uma sentença de adeus nos deixa mudos,
Sentimo-nos fraquejar, adoecer.

A tristeza confronta-se com a vida.
Permaneço em mim, mas ainda
Vejo os dias de sol a morrer.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Descontente

Chego em casa lamentando as horas que perdi.
Faço café, coloco o gato pra fora e ouço teu choro,
mas concentro-me no meu cansaço e tento dormir.
Não consigo. Levanto e acendo um cigarro,
blasfemo e maldigo o dia em que te conheci.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Síntese

Em busca de refúgio
Abriguei-me na apatia.
O que mais seria
Senão mero desespero?
O tempo não espera
E às vezes tenho medo
De cair
E, quando levantar,
Ele já ter ido embora.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Talvez Só

Dois passos no escuro e você está lá.
Não sabe como chegou, nem a marca do cigarro que acabou de acender.
Pareço familiar, mas nem tanto.
Não o suficiente para que pudesse lembrar meu nome.
Passamos muito tempo juntos, mas eu estava só.
Pareço familiar.
Talvez a moça comportada da lavanderia,
talvez a vadia do boteco da esquina.
Talvez não.
Familiar, mas nem tanto.
Dois passos no escuro e você está lá.
Fixou os olhos verdes no chão
e nem disse boa noite.
Talvez lembre quantos dias ficou fora,
talvez lembre meu nome.
Talvez não.
Pareço familiar, mas nem tanto.
Você maldiz o sol por demorar a aparecer.
Não sabe se a noite foi boa ou ruim,
mas quer que acabe logo.
Dois passos no escuro e você está lá.
Passamos muito tempo juntos, mas eu estava só.
Você reclama da lentidão das horas,
mas sou eu quem tem que esperar.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sem pensar

Eu atravesso a rua sem olhar para os lados.
Não paro, não penso, não ouço. Só atravesso.
Sou apenas parte da decoração.
Uma cadeira, um tapete, uma lâmpada queimada.
Sou uma lâmpada queimada e quero matar-me.
Matar-me a mim mesma, com todos os erros ortográficos,
com toda a falta de sensibilidade e eloquência que me foi destinada.
Quero matar-me com palavras obscenas e com a ausência de rima dos meus versos,
com um porém solto, sem vírgula antes nem depois.
E nem antes nem depois quero lembrar que me importo.
Ao invés de cálculos, quero ter erros de concordância nos rins.
Quero uma asfixia proveniente de todos os verbos mal conjugados que ouço todos os dias.
Eu atravesso a rua sem olhar para os lados.
Fecho os olhos e canto um trecho de Still Loving You
com uma pronúncia ruim e sem pensar no que significa.
Oh, inglês, idioma simplório! Como consegues te dar tão bem com a música?
"Time, it needs time...". Três, dois, um... e nada.
Quero matar-me. Matar-me a mim mesma.
Sem pensar, sem lembrar e sem querer,
eu atravesso a rua sem olhar para os lados.